No dia 22 de outubro, o Spotify apresentou os resultados do terceiro trimestre de 2026: 306 milhões de assinantes e 788 milhões de usuários por mês. No mesmo trimestre, a empresa anunciou a integração com o Muse, o agente de inteligência artificial da Meta: a pessoa conversa com o agente, pede música, e o Spotify toca em segundo plano.
Na teleconferência com investidores, duas perguntas foram justamente sobre isso. Uma analista perguntou, com a escuta passando para agentes de terceiros, "quem é dono da relação com o cliente e do dado?", e como evitar que o Spotify vire um fornecedor de bastidor. Outro analista levou a dúvida adiante: se o agente for dono da relação, puder comparar preços, trocar de serviço ou cancelar a assinatura que não é usada, "o que impede o Spotify de virar um cano intercambiável?".
É a pergunta que todo artista deveria fazer sobre o próprio fã. Dessa vez, foi feita ao Spotify.
Como o Spotify respondeu
A resposta do co-presidente-executivo Gustav Söderström teve três partes.
Primeiro, a música continua tocando no Spotify. "Não estamos mandando a música nem nada para esses agentes", disse. Na descrição dele, o agente funciona como um controle remoto.
Segundo, o dado também fica com o Spotify. "Não estamos mandando o dado para esses parceiros. Eles nos perguntam alguma coisa. Nós raciocinamos sobre tudo o que sabemos sobre você e decidimos o que tocar." No exemplo que ele deu, quando alguém usa o agente para criar um podcast pessoal, o conteúdo fica salvo no Spotify, e a empresa aprende algo novo sobre aquela pessoa. "É um ciclo de dado positivo para o Spotify", resumiu.
Terceiro, a regra de convivência. Estar dentro dos agentes é um vetor de crescimento, segundo ele, "desde que nos sintamos confortáveis com a nossa diferenciação em dado e experiência". E, sobre o risco de um agente cancelar a assinatura esquecida: "Nunca vamos apostar que você esqueça a sua assinatura". Em seguida, lembrou que mais de 100 milhões de pessoas usam o Spotify em cerca de 28 dias por mês.
A mesma lógica, do outro lado
A resposta lembra uma frase de julho. Ao explicar por que a Live Nation abre a descoberta de shows a parceiros como o próprio Spotify, o presidente-executivo Michael Rapino resumiu a regra da empresa: buscar todo sinal de descoberta que ajude a vender ingresso, "desde que sejamos donos da transação".
Quem quer alcance abre a porta para a descoberta. Quem quer durar guarda a transação e o dado. A Live Nation abre a descoberta de shows a parceiros como o Spotify e fica com a venda do ingresso. O Spotify deixa os agentes receberem o pedido de música e fica com a reprodução e com o dado.
E o artista, nessa conta?
No relatório anual entregue ao regulador americano, o Spotify se descreve como "unicamente posicionado para oferecer a criadores e fãs acesso uns aos outros" e para dar aos criadores "análises e ferramentas para entender melhor os seus fãs". O documento menciona acesso e análise.
Na mesma teleconferência, o outro co-presidente-executivo, Alex Norström, disse que a empresa tem "os fãs de música, podcast e livro mais apaixonados e engajados do mundo na nossa plataforma". E Söderström apresentou o novo programa de assinaturas para criadores de podcast como mais um exemplo de "capturar a lei de potência" que existe na audiência de cada criador: "Alguns fãs querem ir mais fundo e estão dispostos a gastar mais, e agora podem fazer isso direto no Spotify."
O Goldman Sachs descreve esse padrão no relatório Music in the Air, publicado na semana anterior: em cada caso, seja no streaming, na rede social ou na venda de ingresso, uma plataforma fica entre o artista e o fã, "capturando a transação, o dado, ou os dois".
O Spotify é parte central da carreira da maioria dos artistas, e é onde boa parte da descoberta acontece. A questão é o que fica com o time do artista depois que a descoberta aconteceu.
O que o Spotify faz, e o artista pode fazer
A resposta do Spotify aos agentes sugere três práticas que o time do artista pode adaptar.
Manter um canal onde o fã chega até você. O agente funciona como porta de entrada, e a música continua tocando no aplicativo do Spotify. O artista pode usar todas as plataformas para ser descoberto e manter um canal próprio onde o fã se cadastra, como lista de e-mail e WhatsApp, além de campanhas que levam até ele, como o pre-save no smart link do próprio artista.
Registrar cada interação. O Spotify aprende algo novo a cada uso. O time do artista também pode aprender com as interações que consegue registrar: quem fez o pre-save, quem comprou ingresso no show que a equipe produziu, quem comprou na loja, quem respondeu à mensagem.
Ser usado. Contra o cancelamento, o Spotify aposta na frequência de uso. Uma base de fãs que só recebe mensagem uma vez por ano, no lançamento, vira lista esquecida. Uma base com quem o time fala em cada lançamento, show e venda de merch tem chance de virar relação.
Quando perguntaram ao Spotify quem é dono da relação com o ouvinte, a empresa tinha resposta. Você sabe responder quem é dono da relação com o fã do seu artista?
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