Em 30 de outubro, o Pussycat Dolls tocou num estádio de São Paulo, com ingresso à venda na Eventim. No dia seguinte, as três integrantes subiram ao palco do Tokio Marine Hall para um pocket show "somente para convidados". O anúncio da 30e, produtora da turnê, avisava: "Não haverá venda de ingressos!"
Para entrar pela porta anunciada, era preciso provar que era fã. A Budweiser, cerveja oficial dos shows da produtora, criou o Fã Captcha, com criação da Africa Creative: no lugar do teste que separa gente de robô, um quiz de seis perguntas sobre o grupo, contra o relógio. Pelo regulamento, 600 pares de ingressos foram distribuídos pelo ranking de acertos e, no empate, pelo menor tempo. O Itaú, que apresenta a turnê pelo Itaú Live, ofereceu aos clientes a chance de jogar um dia antes e de novo na abertura geral. "Chances em dobro", dizia o post.
- Fã Captcha: no lugar do teste anti-robô, um quiz.
- Seis perguntas sobre o grupo.
- Contra o relógio: o tempo conta.
- Ranking por acertos; no empate, vence o menor tempo.
- Prêmio: 600 pares de ingressos para um show só para convidados.
A ideia é boa
Vale dizer isso antes de qualquer coisa, porque é verdade. O Fã Captcha acertou três coisas importantes numa ação de patrocínio: escassez de verdade, acesso que dinheiro não compra e a sensação de reconhecimento. Carol Pascoal, VP de Marketing e Comunicação da 30e, disse ao UpdatePop que a experiência "reconhece uma relação que já existe entre o fã e o artista. É um acesso que não está à venda, mas que nasce desse vínculo construído ao longo do tempo".
É exatamente isso.
Do quiz ao histórico de compra
Na ação, o acesso foi organizado por seis perguntas, numa tarde. Depois do show, o próprio Itaú contou no Instagram como as pessoas chegaram lá: "Teve quem dançou, quem fez barulho no fandom, quem usou a #MeNotaItaú e quem mandou bem no fã-captcha." As réguas foram trívia, barulho em rede social e ser cliente do banco.
O produtor tem outra régua: o histórico de compra. Por ele, dá para ver quem foi a cinco edições seguidas, quem viajou de outro estado, quem comprou para a turnê anterior do mesmo artista. É vínculo medido em anos, por quem pagou para estar lá.
Esse histórico está espalhado entre a bilheteria, o cadastro do site e as listas de ativação, e o que chega ao produtor depende do contrato com a ticketeira e do consentimento do comprador.
O superfã compra antes, melhor ou exclusivo
Aqui está a diferença de desenho. Para o produtor, dar ingresso de graça ao superfã pode significar abrir mão da receita de quem compraria de qualquer jeito, e o histórico de compra mostra quem é esse grupo. O que se oferece a ele é acesso, em três formas:
- Antes: uma janela de pré-venda só para quem voltou, aberta antes da venda geral.
- Melhor: o setor mais perto, a entrada antecipada, o upgrade que não aparece para todo mundo.
- Exclusivo: a passagem de som, o encontro, o show pequeno. O pocket show é a versão extrema.
A janela própria pode conviver com a do patrocinador. Na venda do Simple Plan, que a 30e traz em maio de 2027 com o Itaú Live, a página da Eventim abriu a "Pré-venda Artista" no mesmo dia e na mesma hora da pré-venda para clientes Itaú Private e Personnalité. Os termos de uso da Eventim preveem que, "mediante a determinação do Promotor do Evento", alguns eventos tenham pré-venda exclusiva, com acesso por código ou por validação de dados na compra.
Como montar a sua
Na escala de um festival brasileiro, a mecânica pode ser adaptada:
passagem de som, encontro, setor mais perto e a janela antecipada
hipótese a testar
- Defina a régua: quantas edições conta como "voltou". Duas? Três? O número muda o tamanho do grupo. Defina um limite compatível com o acesso que você quer oferecer.
- Separe por afinidade: quem comprou para um artista específico fica sabendo primeiro quando ele é confirmado na mesma praça.
- Olhe para o degrau da segunda para a terceira compra. Num estudo da Please & Thank You, empresa americana que vende programas de VIP, só 20,1% de quem já comprou duas vezes chega à terceira, e, passado esse degrau, a chance de voltar fica bem maior e chega a 80,6% na décima compra. É um ponto que vale testar com uma janela antecipada.
- Fale pelos canais que são seus: e-mail, SMS e WhatsApp, com mensagem nominal.
- Meça: mantenha um grupo sem a ação e compare a taxa de compra dos dois grupos depois da venda.
E quem está fora da comunidade?
Essa é a parte mais interessante, e ainda é uma aposta. A primeira hipótese é que uma janela visível, esgotada pela comunidade antes da venda geral, crie no resto do público a vontade de estar dentro na próxima vez. A segunda é que o superfã, convidado a trazer alguém, leve gente nova.
Não existe, que eu conheça, medição brasileira publicada desse efeito. O teste pode incluir um código de indicação para o superfã: conte quantos compradores de primeira viagem chegaram por ele. Se a hipótese estiver certa, o número aparece. Se não, você descobre com uma ação pequena.
Não precisa ser um pocket show
O caso do Pussycat Dolls envolveu a 30e, uma cervejaria e um banco. Mais da metade dos festivais brasileiros, 56% deles segundo o Mapa dos Festivais, recebe menos de 15 mil pessoas. Como ideia, o caso inspira. Para esse porte, a mecânica pode ser adaptada sem um show fechado: uma janela de 24 horas, um setor melhor ou um convite com nome para quem voltou.
Na sua próxima venda, quem entra primeiro: quem tem o cartão do patrocinador, quem acertou o quiz ou quem já voltou cinco vezes?
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