Análise18 de outubro de 2026 · 6 min de leitura

A Sony já tem sua plataforma de dados de fãs. E o seu artista?

Num documento para investidores, a Sony Music apresentou o Fansifter, a startup que comprou para separar os fãs dos seus artistas em grupos e falar direto com eles. A gravadora tem a sua camada de dado de fã. A pergunta é quem monta a do time do artista, e quem fica com a relação.

Gabriel Lupi
Gabriel Lupi
Sistemas invisíveis para momentos visíveis
mãos segurando um disco de vinil azul translúcido contra a luz numa loja de discos à noite; sobre o balcão, um celular com uma notificação, de onde sai um fio luminoso de dados em direção a um prédio corporativo distante
Ilustração editorial gerada com apoio de inteligência artificial

Em junho de 2025, a Sony publicou para investidores a apresentação anual da sua divisão de música, liderada por Rob Stringer. No slide 12, sob o título "Continued Growth in Data & Technology Capabilities", estão os logos de oito ferramentas. Uma delas é de uma startup estoniana que a Sony tinha comprado no ano anterior, o Fansifter. Debaixo do logo, a legenda: "First Party Fan Data Platform". Plataforma de dado de fã de primeira parte.

No rodapé do mesmo slide, a Sony avisa que todas aquelas ferramentas são "100% próprias, desenvolvidas internamente e adquiridas". Uma das três grandes gravadoras do mundo diz assim, a quem investe nela, que tem ferramentas próprias para se conectar com os fãs dos seus artistas e analisá-los.

Slide da Sony com oito logos de ferramentas de dados; sob o logo do Fansifter, a legenda First Party Fan Data Platform.
Slide 12 da apresentação "Music Segment (Global)", de Rob Stringer, no Business Segment Presentation 2025. Reprodução: Sony Group Corporation, Relações com Investidores (13/06/2025).

De bilheteria na Estônia a peça da Sony

O Fansifter nasceu em Tallinn, em 2019. Um dos fundadores e CEO, Aivar Laan, vinha do mercado de eventos ao vivo, onde tinha criado uma plataforma de venda de ingressos.

Antes da compra, a empresa se apresentava como uma plataforma colaborativa de dados de clientes, feita para negócios que vivem de fã. A ideia era juntar o dado de primeira parte de vários parceiros da mesma carreira, como artista, empresário, gravadora, promotora e loja de merch, para vender mais.

Em outubro de 2024, a Sony Music anunciou a compra do Fansifter num evento em Londres. O preço não foi divulgado. O material oficial distribuído à imprensa descreve a ferramenta como uma solução da Sony Music que ajuda os artistas e seus times a usar dados para entender e alcançar o seu público. Na formulação da própria Sony, "from casual fans to superfans", do fã casual ao superfã. O site da empresa já não está no ar.

Como funciona, segundo quem comprou

No mesmo evento, o chefe de produto da Sony Music, Jacob Fowler, fez uma demonstração da ferramenta. A Music Business Worldwide relatou que ela separa os fãs de cada artista em superfãs, engajados, casuais e novos, a partir do que eles fazem: pre-save de álbum, cadastro em newsletter, compra de merch virtual. Segundo Fowler, desde a compra, a Sony vem construindo algoritmos próprios que recalculam esses grupos duas vezes por dia.

Fowler deu como exemplo um vinil exclusivo, azul translúcido, ao qual a gravadora quer dar acesso primeiro a superfãs e engajados. "Esses fãs nos disseram que querem ser avisados por SMS assim que estiver disponível", explicou. A ferramenta filtra quem vai receber o aviso.

O exemplo mostra a gravadora combinando segmentação e contato direto: ela sabe em que grupo está cada fã e por qual canal esse grupo pediu para ser avisado, e fala com ele sem passar por algoritmo de rede social. A diretora-geral da Ministry of Sound, gravadora do grupo, descreveu um uso: a ferramenta ajuda a entender o público, "especialmente quando começamos do zero com um artista novo".

Para o artista contratado, é uma estrutura poderosa trabalhando a favor do lançamento dele.

Do disco ao show

Em maio de 2024, o logo do Fansifter aparecia em outro slide da apresentação anual, intitulado "Building Fan Connections Across All Revenue Streams". Em cima, as frentes de receita da música: streaming em nove plataformas, vídeo curto, games, inteligência artificial, merch, ao vivo e parcerias com outras empresas do grupo Sony. Embaixo de todas, uma faixa chamada "Fan Engagement Strategy", com uma escada de quatro degraus de fã.

Slide da Sony de 2024: no alto, as frentes de receita da música (streaming, vídeo curto, games, IA, merch, ao vivo e parcerias do grupo); na base, a faixa Fan Engagement Strategy, com uma escada de quatro degraus de fã e o logo do Fansifter.
Slide 20 da apresentação "Music Segment (Global)", de Rob Stringer, no Business Segment Meeting 2024. Reprodução: Sony Group Corporation, Relações com Investidores (30 e 31/05/2024).

O desenho põe o dado de fã na base de todas essas frentes, do disco ao show. A frase escolhida para o slide, "connect creators with the right audiences", define o papel que a Sony dá à gravadora: conectar criadores ao público certo.

Primeira parte, no vocabulário de dados, é quem coletou o dado na relação direta com o consumidor. Na legenda da Sony, a primeira parte é a Sony.

A Sony não está sozinha

Outras empresas do setor descrevem, nos próprios documentos, estruturas para conhecer ou alcançar o seu público. No relatório anual de 2025, a Universal informou que mais de 200 milhões de fãs estavam cadastrados para receber comunicação dos sites da empresa. Na teleconferência de resultados de julho de 2026, o presidente-executivo da Live Nation, Michael Rapino, resumiu o objetivo da empresa: buscar qualquer sinal de descoberta que ajude a vender ingresso, "desde que sejamos donos da transação". A T4F lista entre os seus diferenciais uma base de mais de 8 milhões de clientes. Em outro modelo, a Deezer, nos termos das ações do Deezer Club no Brasil, informa que pode considerar um "fan score" interno para escolher quem ganha ingresso, sem divulgar a fórmula.

São mecanismos diferentes, cada um do seu lado do balcão, para identificar, cadastrar ou alcançar o fã.

Quem ficou sem

Segundo um estudo da MIDiA Research com a Amuse, de 2024, 95,5% dos artistas lançam música por conta própria, por distribuidora ou serviço de artista. Menos de 5% têm contrato com gravadora. O mesmo estudo aponta que, entre as coisas que artistas e empresários mais querem das plataformas de streaming, está o acesso direto ao dado dos próprios fãs.

Para esses artistas, e para os empresários que cuidam deles, o dado de fã costuma ficar espalhado entre distribuidora, bilheteria, loja e redes, sem uma camada que junte tudo. O artista contratado, por sua vez, depende do contrato para saber o que, dessa estrutura toda, fica com ele quando o contrato termina.

A sua plataforma já existe, só está espalhada

Lido junto com a demonstração, o material da Sony desenha três etapas: coletar, unificar e ativar. O time do artista já coleta em vários pontos.

A coleta pode passar pelo pre-save no smart link do próprio artista, pela lista de compradores de um show que a equipe produziu, pela loja de merch e pelo formulário do fã-clube. O que falta, em muitas equipes, é juntar essas bases num lugar só, com consentimento e com alguém do time responsável por elas. Com a base unificada, dá para separar, por exemplo, quem compra de quem só escuta.

A Sony usou o SMS no exemplo. No Brasil, o canal mais próximo do fã é o WhatsApp, e ele não precisa baixar nada para ser avisado do vinil, da pré-venda ou do show extra. O mesmo dado pode ajudar a refinar a mídia paga: listas de fãs podem alimentar Custom Audiences no Meta, no TikTok e no Google e servir de base para encontrar públicos semelhantes.

A Sony deu nome à dela e mostrou a investidor. Se amanhã o seu artista precisar avisar os 500 fãs mais engajados de São Paulo sobre uma data extra, em qual plataforma está essa lista e de quem ela é?

Leia também: O maior trunfo do Jão · O superfã vale uma casa própria

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Sony Group Corporation, apresentação "Music Segment (Global)", Business Segment Presentation 2025 (publicada em 13/06/2025), slide 12, "Continued Growth in Data & Technology Capabilities". Sony Group Corporation, apresentação "Music Segment (Global)", Business Segment Meeting 2024 (30 e 31/05/2024), p.20, "Building Fan Connections Across All Revenue Streams". Sony Music, press kit do Immersive Tech Day (Londres, 22/10/2024): descrição oficial do Fansifter. Music Business Worldwide, "Sony Music showcases recently-acquired fan-engagement apps Songwhip and Fansifter at Immersive Tech Day in London", Murray Stassen (22/10/2024): segmentos, falas de Jacob Fowler e de Negla Abdela (Ministry of Sound). Crunchbase, Invest in Estonia (fev/2020) e Music Estonia: fundação, fundador e descrição do produto antes da compra. Universal Music Group, Annual Report 2025 (p.35). Live Nation Entertainment, transcrição oficial da teleconferência de resultados do 2T26 (30/07/2026). Time For Fun (T4F), Apresentação Institucional e Formulário de Referência 2026 (CVM). Deezer, Termos Específicos de Participação do Deezer Club (setembro de 2026). MIDiA Research e Amuse, Sustainability from Chaos (junho de 2024): artistas artist direct e o pedido de acesso a dado de fã. Análise e enquadramento do autor.

Nota: A legenda "First Party Fan Data Platform" está num deck de investidor, documento de primeira mão mas não auditado. O rodapé sobre ferramentas "fully-owned" vale para as oito ferramentas do slide; as demais (Songwhip, T.A.D.A.S, Apollo Insights, Artist Portal, SCORE, Go e Insights) não são descritas no deck, e o texto não as descreve. Os quatro grupos (superfãs, engajados, casuais e novos) são a descrição da Music Business Worldwide sobre a demonstração, e não aparecem em documento da Sony; a escada do slide de 2024 usa outros nomes (Discovering, Casual, Supporting, Dedicated), e o texto não trata as duas listas como equivalentes. Não foi encontrado caso público com artista nomeado e resultado medido de uso do Fansifter; o único depoimento público é de uma gravadora do próprio grupo. A Sony diz que a ferramenta apoia os artistas e seus times; se o artista ou o time acessam, exportam ou levam esse dado ao fim do contrato depende de contratos que não são públicos, e o texto não afirma nada sobre isso. A leitura de que o material da Sony, junto com a demonstração, descreve um ciclo de coletar, unificar e ativar é do autor, assim como a observação de que o dado de fã de artistas independentes costuma ficar espalhado entre fornecedores. As citações em inglês foram traduzidas pelo autor, exceto quando reproduzidas no original. A informação de que o site do Fansifter não está no ar foi conferida em 13/10/2026. Os 95,5% da MIDiA são globais. O fan score da Deezer aparece nos termos como critério que a curadoria "poderá considerar", sem peso divulgado. A Agência 14, da qual o autor foi sócio-fundador entre 2009 e 2018, atendeu a Sony entre seus clientes; o autor também trabalhou na Deezer (2019–2020) e na Amazon Music (2020–2023).

Gabriel Lupi
Gabriel Lupi liderou conteúdo na Amazon Music e na Deezer, e foi sócio-fundador da Agência 14. Por muito tempo achou que eram duas carreiras diferentes — não são: as duas são sobre sistemas invisíveis para momentos visíveis. É esse método, agora aplicado aos dados de fãs. Este texto é informativo e reflete documentos públicos de investidor e dados de mercado citados ao final.
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