Análise6 de setembro de 2026 · 7 min de leitura

A operação de dados do Rock in Rio cabe no seu festival

Enquanto o festival acontece, uma segunda operação roda em paralelo: ingresso, aplicativo, consumo e cadastro sendo costurados numa visão única do público. O fornecedor descreve isso publicamente, campo por campo. Este texto explica o que está sendo feito, por quem e por quê, e mostra por que a mesma lógica funciona num festival de dez mil pessoas.

Gabriel Lupi
Gabriel Lupi
Estrategista de dados de fãs
vista de cima de uma multidão em festival à noite, com finos fios de luz conectando pontos isolados até formarem um único desenho contínuo, alguns ainda soltos nas bordas; sensação de costura em andamento, não de vigilância
Ilustração editorial gerada com apoio de inteligência artificial

Enquanto o Rock in Rio acontece, uma segunda operação roda em paralelo: ingresso, aplicativo, consumo e cadastro sendo costurados numa visão única do público.

Vale um esclarecimento antes de começar, porque o assunto costuma virar teoria da conspiração sem necessidade. Nada do que vem abaixo é vazamento ou suposição. Está publicado pelos próprios envolvidos, em blog corporativo, material institucional e entrevista à imprensa.

A Zoox descreve publicamente parte dessa operação desde 2022. Em setembro de 2024, a empresa detalhou as fontes de dados que integra no festival; em setembro de 2026, voltou a apresentar o desenho na estreia da nova edição.

O ponto interessante está menos na tecnologia do que na arquitetura. As informações já existem. O trabalho consiste em fazer com que deixem de funcionar como pedaços isolados.

O que está sendo costurado

Segundo a Zoox, as fontes integradas incluem quatro grupos.

Ingressos, com CPF e dados transacionais da venda. Cadastros, com nome completo, endereço, idade, local de nascimento e profissão. Consumo, com bebidas compradas e brindes recebidos. E comportamento, com shows assistidos e interações e postagens em redes sociais.

Cada pedaço nasce em uma parte diferente da operação. O ingresso é vendido pela Ticketmaster. A compra antecipada de bebida e comida acontece no aplicativo oficial do festival. O consumo dentro da Cidade do Rock utiliza o sistema cashless da Zig. As 22 ativações de marca desta edição acrescentam outros cadastros.

Uma pessoa passa por todos esses pontos. Os sistemas, porém, foram desenhados para cada função específica.

É aí que entra a operação de dados descrita pela Zoox: organizar, qualificar e conectar essas informações para construir uma visão única do público. Entre as entregas declaradas pela empresa estão análise de audiência, insights comportamentais, campanhas personalizadas e jornadas de comunicação multicanal.

IngressoQUEM COMPROUCadastroQUEM SE INTERESSOUConsumoO QUE CONSUMIUComportamentoSHOWS E INTERAÇÕESBase únicado públicoUMA CHAVE: TELEFONE OU E-MAIL

O que muda de porte não é a tecnologia. É ter alguém encarregado de juntar as quatro.

Como quatro listas isoladas viram uma visão só

O valor está justamente na conexão. Um ingresso mostra quem comprou. Um consumo mostra o que aquela pessoa fez durante o evento. Um cadastro revela informações que a bilheteria não captura. O comportamento acrescenta outra camada. Separados, são registros operacionais. Juntos, podem sustentar decisões sobre público, comunicação e experiência.

Por que um festival faz isso

Luis Justo, CEO do Rock in Rio, explicou em novembro de 2025 que o planejamento de uma edição começa pela análise dos dados das anteriores, coletados por parceiros e fornecedores. Entre os exemplos citados estão mapas de calor por horário, local e faixa etária e correlações entre gêneros musicais e perfis de público.

O acervo também ajuda a dimensionar o problema: são 24 edições e 14 milhões de visitantes acumulados, segundo o festival.

Alexandre Guerrero, CEO da Eletromidia, resumiu a mudança de prioridade:

Os dados, que antes eram uma nota de rodapé, viraram a primeira linha do briefing.

A lógica aparece também na fala de Rafael de Albuquerque, CEO da Zoox:

Se existe um modelo para criar um festival extraordinário, não sabemos. Mas por trás existe solução que apoia a tomada de decisões.

O dado ganha importância porque reduz a distância entre o que aconteceu e a próxima decisão. Histórico de circulação pode influenciar a distribuição de estruturas. Perfil de público pode orientar negociações com patrocinadores. Comportamento de consumo pode ajudar a dimensionar uma operação. A edição anterior deixa de ser apenas memória e passa a funcionar como evidência.

A Heineken e o dado que parece experiência

A ativação da Heineken com a pulseira The Clinker mostra outro aspecto da mesma lógica.

Trazida do Coachella para o Rock in Rio, a pulseira é sincronizada com a conta de Spotify do participante. Quem não tem conta pode preencher um formulário de preferências. Quando duas pessoas brindam usando copos ou latas equipados, o dispositivo calcula a afinidade musical entre elas. O resultado aparece em luzes na própria pulseira; acima de 90% de compatibilidade, entra em ação o Super Clinker.

A proposta apresentada por Beatriz Ruiz, gerente de experiência e patrocínios do Grupo Heineken, é aproximar pessoas.

Existe uma segunda leitura possível, e ela interessa a quem produz evento. Repare no que a pulseira dispensa: ela não pergunta qual é a sua música favorita. Ela lê o histórico real de escuta, que é bem mais preciso do que qualquer autodeclaração em formulário. E a pessoa entrega isso num gesto que dura dois segundos e devolve uma luz verde e uma conversa com um desconhecido.

Esse princípio é mais interessante para um produtor do que a própria pulseira. O mecanismo que colheu a informação mais rica foi o que menos pareceu coleta de informação. A melhor captura é a que devolve alguma coisa no mesmo instante em que pede.

As mesmas fontes existem no seu festival

É aqui que o caso do Rock in Rio fica útil para eventos de menor porte.

O desenho depende de quatro fontes que aparecem em muitas operações de eventos.

Ingresso. A venda gera informações sobre o comprador. O problema costuma estar no acesso e na organização desses dados depois da transação.

Aplicativo. Um app próprio é apenas uma das possibilidades. Cadastro no site, lista de espera, formulário de pré-venda e inscrição em newsletter cumprem funções semelhantes: registrar uma intenção antes do evento.

Consumo. Cashless, comanda, cupom ou ficha produzem diferentes níveis de informação sobre o que foi comprado e, dependendo da operação, por quem.

Cadastro. Credenciais, sorteios, inscrições e ativações de marca também criam bases que costumam permanecer separadas depois que a ação termina.

Vale reparar no que isso significa. O festival grande dispõe das mesmas categorias de informação que o festival pequeno. O que ele tem a mais é alguém encarregado de juntar as quatro. A diferença está na responsabilidade atribuída, e não na tecnologia disponível.

Um primeiro nível já seria cruzar essas bases por uma chave consistente, como telefone ou e-mail, respeitando as regras aplicáveis de proteção de dados. Isso permite sair de quatro listas independentes para uma visão mais organizada de quem comprou, se cadastrou, consumiu ou participou de uma ação.

A diferença começa a aparecer nas decisões que esse cruzamento permite tomar.

A propriedade da base precisa entrar no projeto

Existe, porém, uma questão anterior à ferramenta: quem controla a base resultante?

Se a informação unificada existe apenas dentro do sistema de um fornecedor, a operação pode produzir uma ótima análise e ainda deixar o produtor dependente daquele fornecedor para reconstruí-la no futuro.

A LGPD diferencia controlador e operador. O controlador é quem toma as decisões referentes ao tratamento dos dados pessoais; o operador realiza o tratamento em nome dele.

Essa definição precisa estar refletida no contrato, junto das regras sobre acesso, finalidade, segurança, retenção, exportação e encerramento do relacionamento. A base construída ao longo de várias edições é um ativo operacional importante demais para desaparecer quando muda o fornecedor.

E os outros 365

Esse ponto ganha peso quando se olha para a sobrevivência dos festivais.

Segundo o Panorama dos Festivais Brasileiros 2025, do Mapa dos Festivais, o Brasil realizou 366 festivais em 2025. Dos eventos que aconteceram em 2024, 174 não tiveram edição em 2025. Entre eles, 90% eram de pequeno e médio porte.

366
festivais realizados em 2025
174
de 2024 sem edição em 2025
90%
desses eram de pequeno e médio porte
Fonte: Mapa dos Festivais · Panorama 2025

O mesmo levantamento aponta o distanciamento da comunidade entre as causas associadas à pausa ou ao encerramento de festivais. Na pesquisa com produtores sobre o que mantém um evento de pé, construção de comunidade e senso de pertencimento aparece como um dos fatores centrais.

Fabrício Nobre, fundador do Festival Bananada, também coloca o entendimento de dados e públicos entre os pilares de sobrevivência, citando pesquisas de opinião para orientar decisões como o momento de anunciar uma edição e a correção de problemas na jornada do público.

As duas pontas se encontram aqui.

O Rock in Rio acumulou 24 edições e construiu uma operação dedicada a conectar diferentes fontes de informação. Um festival de dez mil pessoas pode começar em escala muito menor, usando as informações que já produz em cada edição.

A vantagem está em transformar esse inventário em memória operacional.

A bilheteria sabe quem comprou. O cadastro sabe quem demonstrou interesse. O consumo mostra o que aconteceu durante o evento. As ativações registram outras interações. Enquanto cada uma dessas informações permanecer em um lugar diferente, elas contam histórias incompletas.

Quando passam a conversar, começam a responder perguntas que um festival precisa levar para a próxima edição: quem voltou, quem deixou de voltar, o que consumiu, em quais experiências participou e quais públicos precisam ser reconectados.

O Rock in Rio fez disso uma operação. O seu festival pode começar fazendo o inventário.

Se a sua próxima edição fosse hoje, quantas dessas quatro listas você conseguiria abrir antes do fim do dia?

Zoox, blog corporativo (post sobre Rock in Rio Brasil 2024, publicado em 12/09/2024, com a lista de fontes de dados integradas e as entregas declaradas; e post de 24/06/2022 sobre o papel de gestora de dados oficial) e material institucional "Do dado ao impacto: a inteligência do AI Labs no Rock in Rio", distribuído em setembro de 2026. Experience Club, "Inteligência de dados inova a experiência do Rock in Rio e da Eletromidia" (25/11/2025), com declarações de Luis Justo (CEO do Rock in Rio) e Alexandre Guerrero (CEO da Eletromidia). Exame, "Heineken leva pulseira inteligente do Coachella ao Rock in Rio" (21/08/2026), com o funcionamento do The Clinker e declaração de Beatriz Ruiz. Estado de Minas, guia de preços e compra antecipada pelo aplicativo oficial do festival (setembro de 2026). Mapa dos Festivais, "Panorama dos Festivais Brasileiros 2025" e a reportagem "Por que tantos festivais pausam ou deixam de existir", com os números de 2025 e os depoimentos de produtores. Análise e enquadramento do autor.

Nota: As descrições sobre integração de fontes de dados, entregas e visão 360º são declarações públicas da própria empresa fornecedora, com as datas indicadas, e não uma verificação independente do autor. O escopo específico contratado para a edição de 2026 não é público. As imagens de painéis que acompanham o material institucional são ilustrações, e os números que aparecem nelas não representam dados do festival. A identificação das empresas que operam bilheteria e cashless vem do conhecimento de mercado do autor, e não das fontes citadas, que descrevem o aplicativo oficial sem nomear os demais operadores. Entre as 22 marcas com ativação nesta edição, este texto descreve a coleta de dados apenas onde ela está documentada na imprensa, no caso do The Clinker, e no fluxo de cadastro do aplicativo oficial. Nada aqui afirma como o festival ou seus parceiros tratam, armazenam ou compartilham dados pessoais, nem quem detém a titularidade da base resultante.

Gabriel Lupi
Gabriel Lupi liderou conteúdo na Amazon Music e na Deezer, e foi sócio-fundador da Agência 14. Por muito tempo achou que eram duas carreiras diferentes — não são: as duas são sobre sistemas invisíveis para momentos visíveis. É esse método, agora aplicado aos dados de fãs. Este texto é informativo e reflete dados públicos de mercado e declarações citadas ao final.
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