Enquanto o Rock in Rio acontece, uma segunda operação roda em paralelo: ingresso, aplicativo, consumo e cadastro sendo costurados numa visão única do público.
Vale um esclarecimento antes de começar, porque o assunto costuma virar teoria da conspiração sem necessidade. Nada do que vem abaixo é vazamento ou suposição. Está publicado pelos próprios envolvidos, em blog corporativo, material institucional e entrevista à imprensa.
A Zoox descreve publicamente parte dessa operação desde 2022. Em setembro de 2024, a empresa detalhou as fontes de dados que integra no festival; em setembro de 2026, voltou a apresentar o desenho na estreia da nova edição.
O ponto interessante está menos na tecnologia do que na arquitetura. As informações já existem. O trabalho consiste em fazer com que deixem de funcionar como pedaços isolados.
O que está sendo costurado
Segundo a Zoox, as fontes integradas incluem quatro grupos.
Ingressos, com CPF e dados transacionais da venda. Cadastros, com nome completo, endereço, idade, local de nascimento e profissão. Consumo, com bebidas compradas e brindes recebidos. E comportamento, com shows assistidos e interações e postagens em redes sociais.
Cada pedaço nasce em uma parte diferente da operação. O ingresso é vendido pela Ticketmaster. A compra antecipada de bebida e comida acontece no aplicativo oficial do festival. O consumo dentro da Cidade do Rock utiliza o sistema cashless da Zig. As 22 ativações de marca desta edição acrescentam outros cadastros.
Uma pessoa passa por todos esses pontos. Os sistemas, porém, foram desenhados para cada função específica.
É aí que entra a operação de dados descrita pela Zoox: organizar, qualificar e conectar essas informações para construir uma visão única do público. Entre as entregas declaradas pela empresa estão análise de audiência, insights comportamentais, campanhas personalizadas e jornadas de comunicação multicanal.
O que muda de porte não é a tecnologia. É ter alguém encarregado de juntar as quatro.
O valor está justamente na conexão. Um ingresso mostra quem comprou. Um consumo mostra o que aquela pessoa fez durante o evento. Um cadastro revela informações que a bilheteria não captura. O comportamento acrescenta outra camada. Separados, são registros operacionais. Juntos, podem sustentar decisões sobre público, comunicação e experiência.
Por que um festival faz isso
Luis Justo, CEO do Rock in Rio, explicou em novembro de 2025 que o planejamento de uma edição começa pela análise dos dados das anteriores, coletados por parceiros e fornecedores. Entre os exemplos citados estão mapas de calor por horário, local e faixa etária e correlações entre gêneros musicais e perfis de público.
O acervo também ajuda a dimensionar o problema: são 24 edições e 14 milhões de visitantes acumulados, segundo o festival.
Alexandre Guerrero, CEO da Eletromidia, resumiu a mudança de prioridade:
Os dados, que antes eram uma nota de rodapé, viraram a primeira linha do briefing.
A lógica aparece também na fala de Rafael de Albuquerque, CEO da Zoox:
Se existe um modelo para criar um festival extraordinário, não sabemos. Mas por trás existe solução que apoia a tomada de decisões.
O dado ganha importância porque reduz a distância entre o que aconteceu e a próxima decisão. Histórico de circulação pode influenciar a distribuição de estruturas. Perfil de público pode orientar negociações com patrocinadores. Comportamento de consumo pode ajudar a dimensionar uma operação. A edição anterior deixa de ser apenas memória e passa a funcionar como evidência.
A Heineken e o dado que parece experiência
A ativação da Heineken com a pulseira The Clinker mostra outro aspecto da mesma lógica.
Trazida do Coachella para o Rock in Rio, a pulseira é sincronizada com a conta de Spotify do participante. Quem não tem conta pode preencher um formulário de preferências. Quando duas pessoas brindam usando copos ou latas equipados, o dispositivo calcula a afinidade musical entre elas. O resultado aparece em luzes na própria pulseira; acima de 90% de compatibilidade, entra em ação o Super Clinker.
A proposta apresentada por Beatriz Ruiz, gerente de experiência e patrocínios do Grupo Heineken, é aproximar pessoas.
Existe uma segunda leitura possível, e ela interessa a quem produz evento. Repare no que a pulseira dispensa: ela não pergunta qual é a sua música favorita. Ela lê o histórico real de escuta, que é bem mais preciso do que qualquer autodeclaração em formulário. E a pessoa entrega isso num gesto que dura dois segundos e devolve uma luz verde e uma conversa com um desconhecido.
Esse princípio é mais interessante para um produtor do que a própria pulseira. O mecanismo que colheu a informação mais rica foi o que menos pareceu coleta de informação. A melhor captura é a que devolve alguma coisa no mesmo instante em que pede.
As mesmas fontes existem no seu festival
É aqui que o caso do Rock in Rio fica útil para eventos de menor porte.
O desenho depende de quatro fontes que aparecem em muitas operações de eventos.
Ingresso. A venda gera informações sobre o comprador. O problema costuma estar no acesso e na organização desses dados depois da transação.
Aplicativo. Um app próprio é apenas uma das possibilidades. Cadastro no site, lista de espera, formulário de pré-venda e inscrição em newsletter cumprem funções semelhantes: registrar uma intenção antes do evento.
Consumo. Cashless, comanda, cupom ou ficha produzem diferentes níveis de informação sobre o que foi comprado e, dependendo da operação, por quem.
Cadastro. Credenciais, sorteios, inscrições e ativações de marca também criam bases que costumam permanecer separadas depois que a ação termina.
Vale reparar no que isso significa. O festival grande dispõe das mesmas categorias de informação que o festival pequeno. O que ele tem a mais é alguém encarregado de juntar as quatro. A diferença está na responsabilidade atribuída, e não na tecnologia disponível.
Um primeiro nível já seria cruzar essas bases por uma chave consistente, como telefone ou e-mail, respeitando as regras aplicáveis de proteção de dados. Isso permite sair de quatro listas independentes para uma visão mais organizada de quem comprou, se cadastrou, consumiu ou participou de uma ação.
A diferença começa a aparecer nas decisões que esse cruzamento permite tomar.
A propriedade da base precisa entrar no projeto
Existe, porém, uma questão anterior à ferramenta: quem controla a base resultante?
Se a informação unificada existe apenas dentro do sistema de um fornecedor, a operação pode produzir uma ótima análise e ainda deixar o produtor dependente daquele fornecedor para reconstruí-la no futuro.
A LGPD diferencia controlador e operador. O controlador é quem toma as decisões referentes ao tratamento dos dados pessoais; o operador realiza o tratamento em nome dele.
Essa definição precisa estar refletida no contrato, junto das regras sobre acesso, finalidade, segurança, retenção, exportação e encerramento do relacionamento. A base construída ao longo de várias edições é um ativo operacional importante demais para desaparecer quando muda o fornecedor.
E os outros 365
Esse ponto ganha peso quando se olha para a sobrevivência dos festivais.
Segundo o Panorama dos Festivais Brasileiros 2025, do Mapa dos Festivais, o Brasil realizou 366 festivais em 2025. Dos eventos que aconteceram em 2024, 174 não tiveram edição em 2025. Entre eles, 90% eram de pequeno e médio porte.
O mesmo levantamento aponta o distanciamento da comunidade entre as causas associadas à pausa ou ao encerramento de festivais. Na pesquisa com produtores sobre o que mantém um evento de pé, construção de comunidade e senso de pertencimento aparece como um dos fatores centrais.
Fabrício Nobre, fundador do Festival Bananada, também coloca o entendimento de dados e públicos entre os pilares de sobrevivência, citando pesquisas de opinião para orientar decisões como o momento de anunciar uma edição e a correção de problemas na jornada do público.
As duas pontas se encontram aqui.
O Rock in Rio acumulou 24 edições e construiu uma operação dedicada a conectar diferentes fontes de informação. Um festival de dez mil pessoas pode começar em escala muito menor, usando as informações que já produz em cada edição.
A vantagem está em transformar esse inventário em memória operacional.
A bilheteria sabe quem comprou. O cadastro sabe quem demonstrou interesse. O consumo mostra o que aconteceu durante o evento. As ativações registram outras interações. Enquanto cada uma dessas informações permanecer em um lugar diferente, elas contam histórias incompletas.
Quando passam a conversar, começam a responder perguntas que um festival precisa levar para a próxima edição: quem voltou, quem deixou de voltar, o que consumiu, em quais experiências participou e quais públicos precisam ser reconectados.
O Rock in Rio fez disso uma operação. O seu festival pode começar fazendo o inventário.
Se a sua próxima edição fosse hoje, quantas dessas quatro listas você conseguiria abrir antes do fim do dia?
