Estratégia28 de agosto de 2026 · 4 min de leitura

Viralizar não é ter fã

A indústria apostou que viralizar gera streams, streams geram fãs e fãs geram carreira. Um estudo global de 2025 com 10 mil consumidores mostra onde essa conta quebra, e por que atenção alugada não vira relação própria.

Gabriel Lupi
Gabriel Lupi
Ex-Amazon Music e Deezer
Uma multidão à noite iluminada só pelas telas dos celulares; a forma de onda de uma música explode como fogos e se dissolve no escuro, enquanto um pequeno grupo se vira para o artista — os fãs de verdade
Ilustração editorial gerada com apoio de inteligência artificial

Nos últimos cinco anos, gravadoras e artistas despejaram tempo e dinheiro em redes sociais apostando numa cadeia simples: o conteúdo gera viral, o viral gera stream, o stream gera fã, e o fã gera carreira. A teoria é sedutora. O problema é que, na prática, ela trava logo no primeiro elo, e quem paga a conta é o artista.

A conta que não fecha

Em setembro de 2025, a MIDiA Research publicou o estudo All eyes, no ears ("todos os olhos, nenhum ouvido"), com 10 mil consumidores em vários países. O retrato é incômodo: quase metade das pessoas (48%) não deu play em nenhuma música que ouviu nas redes no último mês. E embora 87% ouçam música nas redes, 58% dizem que já tinham ouvido aquela música antes, em outro lugar. Ou seja: a rede social não é onde a descoberta começa; é onde ela ecoa.

Menos de um terço de quem descobre uma música nas redes vira fã. Toda aquela movimentação que parece sucesso (as visualizações, os áudios usados, os comentários) na maioria das vezes não atravessa para o outro lado. Como diz o velho ditado da publicidade: "metade do dinheiro que gasto em propaganda é desperdiçado; o problema é que não sei qual metade".

O paradoxo do TikTok

O caso do TikTok é o mais revelador. Quando alguém descobre um artista por lá, 35% passam a segui-lo na própria plataforma, mas só 23% vão ouvir mais música dele. E entre os que seguiram, apenas 26% foram de fato ouvir mais, contra 45% de quem seguiu o artista em outras redes. O seguidor de TikTok converte pior do que parece: a pessoa fica satisfeita com o conteúdo dentro do app e não sente necessidade de migrar para o streaming. Quanto mais o artista posta, menos o seguidor precisa ouvir a música fora dali.

Há um detalhe que deveria acender um alerta em quem aposta tudo na garotada: os mais jovens, de 16 a 24 anos, são menos propensos que os de 25 a 34 a percorrer quase todas as etapas do caminho, inclusive a de ouvir mais do artista depois de descobri-lo. A indústria mira esse público no TikTok como se fosse o futuro garantido, mas, ao fazer isso, fala justamente com o grupo que menos transforma atenção em escuta.

Atenção alugada

Por que isso acontece? Porque o incentivo da plataforma não é o seu. TikTok e Instagram ganham mantendo o usuário rolando o feed, não mandando ele embora para um serviço de streaming. A MIDiA resume numa frase certeira: a rede social captura valor, mas não o gera. A atenção que você conquista ali é real, mas é alugada: vive dentro do app, sob as regras do app, e some quando o algoritmo decide.

É exatamente o ponto que a gente vem batendo. Um viral é um pico de atenção alugada. Ele pode inflar um número por uma semana e, ainda assim, não deixar nada que seja seu: nem o nome, nem o contato, nem o histórico de quem se empolgou. Quando o trend passa, o artista não fica com a relação; fica com a saudade do gráfico subindo. Reach não é fandom: dá para ser ouvido por milhões e lembrado por ninguém.

O que fazer com isso

A boa notícia é que o estudo também aponta a saída. A recomendação da MIDiA aos artistas é direta: "coloque o artista sobre uma plataforma, não dentro dela". Em vez de mirar o maior alcance possível, mire os fãs certos, e faça a primeira impressão valer. Quando a descoberta começa pela música inteira e pela história do artista, cada novo contato nas redes manda a pessoa de volta para ouvir mais. Quando começa por um trecho solto, o que fica é vontade de rever o trecho, não de conhecer o artista.

E o passo que fecha a conta é virar dono da relação. Use o streaming, o ao vivo e as próprias redes como topo de funil, e canalize tudo para uma base que é sua: e-mail, SMS e, no Brasil, sobretudo WhatsApp. Essa base ninguém fecha com uma mudança de algoritmo. Com ela, é você quem fala direto com quem importa, na hora que importa, sem pagar pedágio nem torcer pelo feed.

Vale um cuidado honesto: o All eyes, no ears é um estudo global e não inclui o Brasil: o caso mais próximo é o México, onde só 19% de quem descobre no TikTok vai ouvir mais do artista. Mas a lição vale ainda mais por aqui. O Brasil é o país onde o canal próprio mais entrega: o WhatsApp é quase universal e tem taxa de abertura que nenhuma rede social alcança. O terreno para transformar atenção em relação é fértil; falta o artista plantar no lugar certo.

Viralizar é ótimo. Mas viral é manchete; fã é patrimônio. Um existe enquanto o algoritmo quiser; o outro é seu enquanto você cuidar dele. A pergunta que todo manager deveria fazer depois do próximo viral não é "quantas visualizações deu?", é "quantas dessas pessoas eu consigo alcançar amanhã, sem pedir licença a ninguém?".

Fontes: MIDiA Research, “All eyes, no ears: why virality is not building fandom” (setembro de 2025; estudo global com 10.000 consumidores). Os dados citados são benchmark global; o estudo não inclui o Brasil (o México é o caso mais próximo). Análise e enquadramento do autor.

Gabriel Lupi
Gabriel Lupi liderou conteúdo na Amazon Music e na Deezer, e foi sócio-fundador da Agência 14. Por muito tempo achou que eram duas carreiras diferentes — não são: as duas são sobre sistemas invisíveis para momentos visíveis. É esse método, agora aplicado aos dados de fãs. Este texto é informativo e reflete dados públicos de mercado citados ao final.
O próximo passo

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