Estratégia21 de agosto de 2026 · 4 min de leitura

O streaming dobrou. A sua audiência continua não sendo sua.

O streaming dobrou de tamanho em cinco anos. No Brasil, o ranking das plataformas mal se mexeu. E, nos dois casos, a sua audiência continua não sendo sua.

Gabriel Lupi
Gabriel Lupi
Ex-Amazon Music e Deezer
Tabuleiro de xadrez com peças de plataformas de streaming, a maioria parada e algumas se movendo, enquanto uma multidão luminosa paira acima sem estar presa a nenhuma peça
Ilustração editorial gerada com apoio de inteligência artificial

Lá fora, o ranking das plataformas se reembaralhou, mas boa parte desse movimento vem de players que nem operam por aqui, como a russa Yandex e a chinesa NetEase. No Brasil e na América Latina, o tabuleiro é estável, liderado com folga pelo Spotify. A lição para o artista, porém, é a mesma nos dois cenários: estável ou volátil, nenhuma plataforma entrega a relação com o fã.

O número de assinantes pagos de música no mundo saiu de 472 milhões em 2020 para 921,6 milhões em 2025: alta de 10,1% só no último ano, com o marco de 1 bilhão à vista, segundo a MIDiA Research. É um dos raros mercados que praticamente dobrou em meia década, e o Brasil está no centro desse crescimento. Mas, quando se olha quem ganhou e quem perdeu participação, vale separar o que é fenômeno global do que de fato acontece no mercado onde você atua.

O que mudou no mundo

No agregado global, entre o fim de 2020 e o fim de 2025, o Apple Music encolheu de 18,4% para 12,6% do mercado de assinantes e o Amazon Music recuou de 12,3% para 8,5%. O YouTube Music subiu de 7,9% para 12,4%. Plataformas como a russa Yandex e a chinesa NetEase multiplicaram sua fatia. Uma única ficou praticamente parada: o Spotify, em torno de 30% o tempo inteiro, segundo a MIDiA.

O que disso vale para o Brasil, e o que não vale

Aqui entra a nuance que muda a conversa. Boa parte do "reembaralhamento" global é puxada por Yandex e NetEase, que não operam no Brasil nem na América Latina. No nosso mercado, o jogo é outro e bem mais estável: o Spotify lidera com folga, cercado por Apple Music, Amazon Music, YouTube Music e Deezer. O movimento existe (o Apple perde algum terreno, o YouTube ganha), mas é gradual. Ninguém pode dizer, com honestidade, que o ranking brasileiro "virou de cabeça para baixo".

Ou seja: se você trabalha com artistas no Brasil, a foto do seu mercado é de estabilidade relativa, não de caos. E é exatamente por isso que o argumento precisa ser feito com cuidado, porque ele não depende de um terremoto de plataformas para se sustentar.

Por que estabilidade não é o mesmo que segurança

O risco, no Brasil, não é a plataforma onde a sua audiência mora desaparecer amanhã. O risco é mais silencioso e estrutural: mesmo num mercado calmo, o artista não é dono da relação com o fã. Um algoritmo muda, uma playlist editorial deixa de incluir o artista, uma regra de distribuição se altera, e nada disso passa pela mão da equipe. A audiência parece sua, mas mora em sistemas que você não controla, dentro de um mercado que você não comanda. Não é preciso uma crise para ficar exposto; basta nunca ter tido o contato do fã.

É por isso que "ter milhões de ouvintes" e "ter uma audiência" continuam sendo coisas diferentes, num mercado volátil ou num mercado estável. Ouvintes são uma métrica emprestada pela plataforma. Audiência é quando você sabe quem são essas pessoas, onde estão e como falar com elas diretamente.

O Brasil é o motor, e é por isso que o relógio corre

A América Latina, junto com a Ásia-Pacífico e o resto do mundo, respondeu por mais de 70% de todo o crescimento de assinantes pelo quinto ano seguido, com a região batendo um pico recorde de novas assinaturas, e o Brasil como força motriz, segundo a MIDiA. Em outras palavras: é aqui que mais gente está entrando no streaming agora. Cada novo assinante é um fã em potencial cuja relação está sendo formada, neste momento, dentro de uma plataforma que o artista não controla. Quanto antes a equipe começa a capturar parte dessa relação, maior a base própria que constrói enquanto o mercado cresce.

O que um artista faz com isso

Isso não é um argumento contra o streaming. O streaming é o melhor mecanismo de descoberta que a música já teve e segue sendo o topo do funil, ainda mais num mercado em expansão como o brasileiro. O ponto é outro: a relação com o fã não pode terminar no streaming. Cada lançamento, cada show, cada momento de viralização precisa converter parte daquele alcance em algo que o artista de fato possui: um e-mail, um número de WhatsApp, um comprador de ingresso identificado. Estável ou volátil, esse é o único ativo que não troca de dono.

Não importa se o mercado onde a sua audiência mora é estável como o brasileiro ou volátil como o global: se você precisasse falar com os seus fãs amanhã, sem depender de nenhuma plataforma ou algoritmo, conseguiria?

Fontes: MIDiA Research, Music Subscriber Market Shares Q4 2025.

Gabriel Lupi
Gabriel Lupi liderou conteúdo na Amazon Music e na Deezer, e foi sócio-fundador da Agência 14. Por muito tempo achou que eram duas carreiras diferentes — não são: as duas são sobre sistemas invisíveis para momentos visíveis. É esse método, agora aplicado aos dados de fãs. Este texto é informativo e reflete dados públicos de mercado citados ao final.
O próximo passo

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